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Obesos merecem respeito: 9 causas que levam à doença

Guilherme Giorelli

13/10/2018 10h42

Crédito: iStock

Comer menos e se exercitar mais é a fórmula mágica para a cura da obesidade. Mas apesar de ser uma recomendação simples e direta, ela também é errada.

Acredite,  todo obeso já tentou fazer mais exercício e comer melhor, mas essa fórmula falha para muitos deles. Também é verdade que muita gente tem um excelente resultado, apenas como comida e atividade física, mas infelizmente isso pode contribuir para aumentar ainda mais o preconceito sobre a condição, se as causas não estiverem esclarecidas.

Dizer "eu fiz isso e fiquei magro, basta que você faça igual" é resumir um problema muito complexo. Blogueiros e celebridades que postam suas barrigas saradas, mostrando parte do treino, mas escondendo o uso injeções e suplementos também contribuem para aumentar o estigma de fracasso que muitas vezes caminha com o paciente obeso.

No dia 11 de outubro é comemorado o Dia Mundial da Obesidade e a ABESO (Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica) a seguinte frase como tema da campanha: "Eu trato obesidade com respeito".

Pode parecer um pouco assustador, em pleno ano 2018, afirmar que é necessário reafirmar respeito para o tratamento de uma doença. Mas infelizmente faz todo sentido.

O obeso, muitas vezes, não é respeitado pela família ou até pelos profissionais de saúde, o que acaba culminando em não ter respeito próprio e não aceitando que tem uma doença. Entender que obesidade é uma doença é fundamental para que possamos tratá-la.

Estamos perdendo essa guerra contra a obesidade. Os números só aumentam e as pessoas estão morrendo mais, já que a obesidade aumenta o aparecimento de outras doenças como câncer, AVC e diabetes. 

No ano passado, um projeto de lei de autoria do deputado federal Felipe Bornier e relatado pela deputada Laura Carneiro chocou muitas pessoas por garantir a produção e distribuição de medicamentos no tratamento da obesidade. Mas você sabe por que obesidade precisa de remédio? Porque é uma doença sem cura.

Precisa de remédio e de alimentação e exercícios corretos. Precisamos de mais informação e menos preconceito.

O Brasil lidera diversos estudos mundiais na área de obesidade. Temos aqui no UOL uma das mais brilhantes médicas e pesquisadora do mundo: a doutora Cíntia Cercato. Mas ainda estamos muito longe do respeito que os pacientes obesos merecem.

Ainda não se convenceu de que a obesidade é uma doença? Confira 9 causas que levam a esse problema:

  1. Balanço energético: para perder peso, é necessário gastar mais calorias do que você consome. Entretanto, muitos obesos, quando comem menos, apresentam uma resposta de metabolismo mais lenta. A pessoa come menos, mas passa a gastar ainda menos, logo, o balanço energético fica igual;
  2. Genética: mais de 400 genes estão implicados no obesidade. Eles afetam o apetite, o metabolismo, a saciedade, o desejo por comida, a distribuição da gordura no corpo e o aumento de fome quando se está estressado;
  3. Epigenética: a maneira como vivemos interfere na expressão dos nosso genes. A epigenética é a ciência que estuda esse impacto. Uma mãe obesa e tabagista provoca mudanças no metabolismo do bebê, o que pode contribuir para o aumento da obesidade na vida adulta;
  4. Seleção Natural: na idade das pedras, sempre houve grande dificuldade em conseguir comida, logo, conservar energia e estocar gordura era uma vantagem adaptativa ao ambiente. Hoje, no entanto, o meio ambiente mudou;
  5. Meio ambiente: os fatores genéticos são as forças internas que nos levam à obesidade. O meio ambiente são todas as forças externas que podem nos levar a comer mais e nos exercitar menos, como controle remoto, carro…;
  6. Paladar infantil: hábitos ruins na infância costumam nos acompanhar pelo resto da vida. Crianças que crescem ingerindo comidas açucaradas e processadas, com alta quantidade de calorias, ficam mais propensas a manter esse hábito na vida adulta;
  7. Indústria alimentícia: aumento das porções, fácil acesso à comida e aumento das calorias nos alimentos industrializados. Da década de 1970 até o ano 2000, homens passaram a consumir 168kcal a mais por dia e as mulheres, 335kcal, simplesmente porque ficou mais fácil exagerar;
  8. Sedentarismo: menos de 25% da população americana consegue atingir a meta de 1 hora de exercício vigoroso por dia. Muitos colégios sequer disponibilizam aulas de educação física para as crianças;
  9. Estresse: comer de forma irregular, dormir pouco e com qualidade ruim desregula o hipotálamo, local do cérebro onde está o centro da fome, levando a pessoa a comer mais. 

Existem muitas outras causas da obesidade. A doença é muito complexa. Remédio não pode e não deve ser a base do tratamento, mas para muitas pessoas ele é fundamental para o sucesso terapêutico. 

Para aqueles que querem a fórmula mágica, saibam que com remédio ou sem remédio, todos precisamos comer melhor e nos exercitar mais.

Bons treinos!

Sobre o autor

Guilherme Giorelli é nutrólogo e médico do esporte e exercício. Fellow do International College for Advancement of Nutrology e com mestrado em vitamina D, ele organiza eventos científicos, além de ministrar aulas e palestras. Atualmente é diretor do SMEERJ (Sociedade de Medicina Esportiva e do Exercicio do Rio de Janeiro). Seu dia a dia, porém, é o atendimento de pacientes em sua clínica, que buscam cuidar da saúde por meio da alimentação e do exercício.

Sobre o blog

Este blog é para discutir, sob a ótica da nutrologia e da medicina do esporte, qual o impacto da alimentação sobre o nosso organismo, quais as suas relações com o exercício e como a suplementação pode ajudar. Afinal, todo dia existem novos artigos sendo publicados, novas verdades para serem aprendidas ou questionadas. A ciência nunca está parada, nem você deve ficar.

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