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Blog do Guilherme Giorelli

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Azeite e mix de oleoginosas podem reduzir em 30% o risco de mortalidade

Guilherme Giorelli

23/06/2018 04h00

Crédito: iStock

Que tal acrescentar na sua dieta quatro colheres de sopa de azeite extravirgem ou 30 gramas de um mix de oleaginosas –castanhas, nozes e amêndoas e reduzir em 30% o risco de ter infarto, AVC ou morrer e doenças cardiovasculares nos próximos 5 anos?!?

Essa impressionante redução, com magnitude superior a de muitas medicações, foi demonstrada em artigo publicado esta semana na revista NEJM. Mas, para conquistar esse benefício, os pacientes também seguiram a dieta mediterrânica. Vamos entender?

A dieta mediterrânica tem esse nome devido sua origem: ela vem dos países banhados pelo Mar Mediterrâneo. Começou a ser descrita nos anos 1950 e 1960, quando verificou-se que naquela região, apesar do consumo elevado de gordura, a mortalidade por doenças cardiovasculares era menor.

Trata-se de uma alimentação com:

  • Alta ingestão de azeite, frutas, nozes, vegetais e cereais;
  • Moderada ingestão de peixes e aves;
  • Baixa ingestão de produtos lácteos, carne vermelha, carnes processadas e doces;
  • Vinho presente durante as refeições, sempre com moderação.

Nas décadas de 1970 e 1980, houve uma grande aumento do número de estudos sobre a mortalidade cardiovascular. Muitos deles apontaram para a redução do consumo das gorduras, portanto uma dieta como a mediterrânica, que estimulava o alto consumo de gorduras e apresentava menor presença de doenças do coração, despertou a atenção.

As gorduras presentes na alimentação não são todas iguais.  A dieta mediterrânica é rica em gorduras totais, monoinsaturadas e poliinsaturadas, e tem menor teor de gordura saturada.

O maior consumo de gorduras poliinsaturada e monoinsaturada –popularmente conhecidas como "gorduras boas" — é associado a menores taxas de doenças cardiovasculares e mortalidade por todas as causas, em diversos estudos observacionais.

O estudo publicado essa semana na revista NEJM não foi observacional, ele foi prospectivo, multicêntrico e randomizado. Nesse tipo de estudo, em vez de apenas observar a população, os autores a dividem em grupos, propõem uma mudança em alguns dos grupos e acompanham os resultados ao longo do tempo. Portanto, esse estudo tem um nível de importância maior na hierarquia científica.

Entender que nem todos os estudos têm o mesmo poder de impacto em suas conclusões é fundamental para que os profissionais de saúde possam saber como orientar a população.

O estudo foi realizado na Espanha com 7.447 participantes, de idade entre 55 a 80 anos, sendo 57% mulheres que apresentavam alto risco cardiovascular.

Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em três grupos:

  • Dieta mediterrânea suplementada com azeite extravirgem (4 colheres de sopa por dia)
  • Dieta mediterrânea suplementada com nozes mistas (30 g por dia, sendo 15 g de nozes, 7,5 g de avelãs e 7,5 g de amêndoas)
  • Dieta controle (apenas conselhos para redução de gordura).

Não houve restrição na quantidade de calorias das dietas.

Após um acompanhamento médio de 4,8 anos, os dados obtidos foram que a dieta mediterrânica suplementada com azeite extravirgem ou pelo mix de oleoginosas foi associada ao menor risco de eventos de doença cardiovascular que o grupo controle, com uma diferença relativa de 30%.

Ao se analisar a alimentação que os três grupos realizaram, se descobriu uma importante informação: o consumo total de gordura foi semelhante em todos os grupos (apesar dos conselhos ao grupo controle para reduzir a ingestão do nutriente).

Então qual seria a razão por trás do resultado obtido?

Uma possível resposta é que houve diferenças na distribuição dos subtipos de gordura.

O azeite é a principal fonte de gordura na dieta do Mediterrâneo, e acredita-se que  possui efeitos cardioprotetores. Ele é rico em gordura monoinsaturada e contém compostos fenólicos, que possuem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

O que podemos concluir é que no contexto de uma dieta de estilo mediterrânico, aumentar o  consumo com um mix de oleoginosas ou azeite extravirgem tem efeitos benéficos sobre as doenças cardiovasculares.

Mas será que esses benefícios seriam aproveitados pelas pessoas que consomem outras dietas? E em quais quantidades? A ciência ainda não tem todas as respostas.

Por enquanto há algumas certezas : seguir uma dieta mediterrânica e evitar carnes processadas e alimentos ricos em sódio e açúcares adicionados ou carboidratos refinados é muito importante para a saúde.

E, claro, você também não pode ficar parado. Exercite-se!

Bons treinos!

Sobre o autor

Guilherme Giorelli é nutrólogo e médico do esporte e exercício. Fellow do International College for Advancement of Nutrology e com mestrado em vitamina D, ele organiza eventos científicos, além de ministrar aulas e palestras. Atualmente é diretor do SMEERJ (Sociedade de Medicina Esportiva e do Exercicio do Rio de Janeiro). Seu dia a dia, porém, é o atendimento de pacientes em sua clínica, que buscam cuidar da saúde por meio da alimentação e do exercício.

Sobre o blog

Este blog é para discutir, sob a ótica da nutrologia e da medicina do esporte, qual o impacto da alimentação sobre o nosso organismo, quais as suas relações com o exercício e como a suplementação pode ajudar. Afinal, todo dia existem novos artigos sendo publicados, novas verdades para serem aprendidas ou questionadas. A ciência nunca está parada, nem você deve ficar.