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Dieta low carb pode ajudar quem passou por cirurgia bariátrica

Guilherme Giorelli

09/06/2018 04h00

Crédito: iStock

“2 anos após a cirurgia bariátrica, já com a perda de 40 kg, João apresentou náusea, dor de cabeça, tremores, suor frio e perdeu a consciência, uma hora e meia antes ele tinha comido um prato de macarronada.”

O caso é fictício, mas ilustra bem o problema que pode acometer pacientes após a cirurgia bariátrica: a hipoglicemia pós-cirurgia bariátrica.

Hipoglicemia é a diminuição do nível de açúcar (glicose) no sangue para menos de 70 mg/dl, segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, e pode ser acompanhada de sintomas como: tremores, tonturas, palidez, suor frio, nervosismo, palpitações, taquicardia, náuseas, vômitos e fome.

A cirurgia bariátrica é um tratamento muito eficaz para obesidade grave, levando à perda de até 40% do peso inicial e normalização das doenças associadas à obesidade, como: diabetes, pressão alta, dislipidemia, doenças cardíacas e vasculares, apneia do sono, certos tipos de câncer e etc.

No entanto, podem ocorrer consequências a longo prazo, como a hipoglicemia pós-cirurgia bariátrica que é comumente associada ao bypass gástrico em Y-de-Roux (BGYR), tipo de cirurgia mais realizada no mundo e que ocorre geralmente após a ingestão de alimentos ricos em carboidratos.

As cirurgias bariátricas alteram a anatomia do estômago e do intestino para limitar a ingestão de calorias e/ou reduzir a absorção dos alimentos, o que acarreta em alterações hormonais que dão saciedade e diminuem a fome, resultando na perda de peso.

Quando a hipoglicemia ocorre na primeira hora após uma refeição rica em carboidratos, ela é resultado da rápida chegada dos alimentos no intestino devido às alterações anatômicas provocadas pela cirurgia.

Como os alimentos estão muito concentrados, eles puxam a água dos vasos sanguíneos para dentro do intestino, causando uma queda da pressão, palpitações, suor frio, tontura, desconforto abdominal, diarreia, cansaço e necessidade de deitar. Chamamos essa situação de Dumping Precoce.

Quando a hipoglicemia ocorre de uma a três horas após uma refeição e aparece meses ou anos após a operação, como é o caso do nosso personagem, significa que a refeição rica em carboidratos entra mais rápido e mais cedo no intestino devido à cirurgia, e quando é absorvida, aumenta muito o nível de açúcar no sangue. Isso leva a uma produção exagerada de um hormônio do intestino chamado GLP-1 e o pâncreas fabrica ainda mais insulina.

Como esses dois hormônios aumentam em excesso, eles promovem a queda do nível de açúcar no sangue para abaixo do normal, levando à hipoglicemia. Além disso, o paciente que perdeu peso fica mais sensível à ação da insulina, que age para a entrada da glicose do sangue, para as células produzirem energia para o corpo.

Muitos dos casos de hipoglicemia pós-cirurgia bariátrica podem ser controlados com modificações na dieta, sendo o principal tratamento a dieta low carb, que restringe a ingestão de carboidratos, principalmente os de alto índice glicêmico.

Os carboidratos de alto índice glicêmico (ex: pão branco, macarrão, batata, sucos, etc.) são digeridos com mais rapidez, contribuindo para um rápido aumento da glicose no sangue e estimulo da secreção de insulina após a refeição.

A limitação dos carboidratos nesses pacientes reduz a magnitude da glicemia após a alimentação, assim como o estímulo para secreção de insulina e a hipoglicemia subsequente.

Pensando nisso, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Harvard e do renomado Joslin Diabetes Center, em Boston, nos Estados Unidos, publicaram em maio deste ano um artigo com um plano nutricional com 10 pontos chaves para a prevenção de hipoglicemia pós-cirurgia bariátrica. Vamos a eles:

  1. Limite as porções de carboidratos –30 gramas por refeição, 15 gramas por lanche;
  2. Escolha carboidratos de baixo índice glicêmico;
  3. Evite carboidratos de alto índice glicêmico;
  4. Inclua gorduras boas em cada refeição ou lanche –15 gramas por refeição, 5 gramas por lanche;
  5. Enfatize a ingestão adequada de proteínas;
  6. Faça refeições e lanches no espaço de 3 a 4 horas de intervalo;
  7. Evite consumir líquidos com as refeições e mastigue os alimentos devagar e completamente;
  8. Evite álcool;
  9. Evite cafeína;
  10. Mantenha a ingestão de vitaminas e minerais pós-bariátrica.

É muito importante o acompanhamento nutricional no pós-operatório da bariátrica. O profissional de saúde irá individualizar suas necessidades alimentares e de vitaminas e minerais, para alcançar a perda de peso desejada e sem hipoglicemia.

Bons treinos!

Sobre o autor

Guilherme Giorelli é nutrólogo e médico do esporte e exercício. Fellow do International College for Advancement of Nutrology e com mestrado em vitamina D, ele organiza eventos como diretor científico da Associação Brasileira de Nutrologia do Rio de Janeiro (ABRAN-RJ), além de ministrar aulas e palestras. Seu dia a dia, porém, é o atendimento de pacientes que buscam cuidar da saúde por meio da alimentação e do exercício.

Sobre o blog

Este blog é para discutir, sob a ótica da nutrologia e da medicina do esporte, qual o impacto da alimentação sobre o nosso organismo, quais as suas relações com o exercício e como a suplementação pode ajudar. Afinal, todo dia existem novos artigos sendo publicados, novas verdades para serem aprendidas ou questionadas. A ciência nunca está parada, nem você deve ficar.

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